Luvas de pelica com peso de chumbo
A Dra. Silvia Viana sendo procurada por um representante da revista Veja
para conceder uma entrevista sobre o programa BBB, respondeu por e-mail de uma
forma bem simples e com bastante objetividade.
Essa resposta representa o que milhões de brasileiros gostariam de dizer.
“Respondo seu e-mail pelo respeito que tenho por sua profissão, bem como pela
compreensão das condições precárias às quais o trabalho do jornalista está
submetido”. Contudo, considero a ‘Veja’ uma revista muito mais que tendenciosa,
considero-a torpe. Trata-se de uma publicação que estimula o reacionarismo
ressentido, paranoico e feroz que temos visto se alastrar pela sociedade; uma
revista que aplaude o estado de exceção permanente, cada vez mais escancarado
em nossa “democracia”; uma revista que mente, distorce, inverte, omite, acusa,
julga, condena e pune quem não compartilha de suas infâmias – e faz tudo isso
descaradamente; por fim, uma revista que desestimula o próprio pensamento ao
ignorar a argumentação, baseando suas suposições delirantes em meras ofensas.
Sendo assim, qualquer forma de participação nessa publicação significa a eliminação do debate (nesse caso, nem se poderia falar em empobrecimento do debate, pois na ‘Veja’ a linguagem nasce morta) – e isso ainda que a revista respeitasse a integridade das palavras de seus entrevistados e opositores, coisa que não faz, exceto quando tais palavras já tem a forma do vírus.
Dito isso, minha resposta é: Preferiria não.
Atenciosamente, Sílvia Viana
Silvia Viana possui graduação em ciências sociais, mestrado e doutorado em sociologia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Suas áreas de estudos são sociologia, crítica cultural e filosofia, com ênfase em teoria crítica contemporânea, teoria sociológica e sociologia da cultura e nos temas ideologia, indústria cultural, consumo, trabalho e subjetividade.
Silvia
Viana sobre a relação entre "1984", de George Orwell e os
"reality shows":
Seu livro
Rituais de sofrimento
Prefácio: Orelha: Gabriel Cohn
Posfácio: Pedro Rocha de Oliveira
Páginas: 192
Ano de publicação: 2013
ISBN: 978-85-7559-309-7
A autora abre o livro da
seguinte maneira:
No dia 25 de julho de 2010, o
programa Pânico na TV levou ao ar uma brincadeira realizada ao vivo com
seus próprios humoristas. Logo que chegaram ao Aeroporto Internacional de
Guarulhos vindos da África do Sul, onde cobriram a Copa das Confederações
da Fifa, foram recebidos pela produção que lhes ofereceu uma merecida
carona, já que a equipe estava exausta da viagem e, segundo o próprio programa,
havia trabalhado sem descanso e em péssimas condições. Em vez de irem
para casa, conforme o prometido, passaram horas rodando sem destino
por São Paulo, até que foram deixados no Aeroporto de Congonhas.
Lá chegando, um colega humorista os recebeu afirmando que se
tratava de uma brincadeira, e o cansaço do passeio seria apenas o início,
pois em seguida eles deveriam se encaminhar ao estúdio para enfrentar
uma lutadora profissional de vale-tudo. Já muito irritado, um técnico da
equipe desabafou: “Eu sou câmera, eu não tenho que tá participando
desse negócio aí [...] tô cansado, porra, são quarenta dias, doze horas,
comendo mal…”. Todos os outros protestaram e, transtornados, se recusaram
a participar: “É uma falta de respeito isso com o cara que tá trabalhando, quero
ir embora, quero ir para minha casa”. O produtor do programa interveio e,
com um celular em riste, ameaçou: “Tem uma ordem que é do Emílio e do Alan
[diretores] pra todo mundo entrar no carro agora e ir todo mundo pra lá”.
Não obstante o ódio generalizado, eles retornaram ao carro. O humorista
encarregado da piada tentou inúmeras vezes fazer os outros rirem até que,
já constrangido, falou em tom de brincadeira: “Não fica bravo comigo, tô
aqui trabalhando, cumprindo ordens”. O outro respondeu: “Brincar… a gente
até compartilha com vocês, só que a gente tá sem comer, sem dormir,
entendeu? É desumano isso, pra caramba”. O operador de câmera, irado,
completou: “Eu tenho uma puta consideração com você, mas como você
consegue ver graça nisso, ver seus amigos de trabalho se fodendo [...] uma
situação que não tem graça [...] O cara lá em casa vai olhar para mim e
achar engraçado ‘ha, ha, o cameraman tá fodido’”. Quando chegaram ao
estúdio, aquele que ainda tentava piadas, mas cujo olhar traduzia tristeza,
disse com seriedade: “Vem, por favor, eu também tô cansado, desculpa
aí”.
Capítulo 1: Como essa coisa pôde ser
televisionada sem a menor vergonha?
Capítulo 2: O que sustenta a ameaça dos diretores?
Capítulo 3: Por que a equipe voltou ao carro?
Capítulo 4: Como o humorista suportou “ver seus amigos de trabalho se fodendo”?
Capítulo 5: Por que a piada continuou?
Professora de sociologia na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e doutora pela USP, Silvia Viana leva a sério o aparente escárnio da designação “reality show” em Rituais de sofrimento, novo livro da coleção Estado de Sítio a ser publicado pela Boitempo.
“Não lidamos aqui com um ritual como outro qualquer, não se trata de uma festa ou do consumo, ambos cerimoniais oferecidos aos deuses do prazer. Trata-se de algo mais perturbador, pois o que se vê nos reality shows é a proliferação de rituais de sofrimento”, afirma a pesquisadora no primeiro capítulo.
Silvia Viana analisa tais rituais e mecanismos de dominação em vários produtos televisivos da indústria cultural brasileira, com especial atenção ao maior deles, o Big Brother Brasil, no ar há treze anos. O estudo também abrange programas e filmes de Hollywood que perpetuam a mesma lógica brutal. Assim como no BBB, o assassino Jigsaw da franquia Jogos Mortais, por exemplo, não almeja a morte/eliminação de suas vítimas: ele quer que elas sobrevivam. Mais que isso, que sobrevivam a qualquer preço.
Quais são as molas que movem esse lado fake e nem por isso menos real do mundo em que vivemos? Onde estão as roldanas que dirigem as cordas, quem são as figuras que elas agitam, como o conjunto se fecha sobre si mesmo sem deixar lacunas? Silvia reflete sobre essas questões em um relato clínico, com traços firmes e finos, sem poupar nada nem ninguém. Segundo o sociólogo e professor da USP Gabriel Cohn, a fatura desse livro parece seguir uma regra básica: quanto mais o tema se revela repugnante, tanto mais refinada deve ser a sua exposição. O resultado é uma escrita em que não cabe o gesto banal da indignação moral nem a repulsa à má qualidade estética – ambas provocações já programadas no espetáculo –, mas algo mais fundo.
Apesar de permanecer na sociedade o debate em torno de um de seus discursos de origem, o mote do espetáculo da realidade e seu maior apelo junto aos telespectadores é a concorrência, não o voyeurismo. “É esse o fundamento que atrai o nosso olhar, pois é o fundamento de nossa reprodução social”, afirma Silvia.
Para além dos inúmeros recordes acumulados pelo programa Big Brother Brasil, é digno de atenção o espírito que, ao longo de três meses anuais, toma o público. A disputa hipnotiza as cidades como um espectro: sem entender como, sabemos nomes e acontecidos, o programa toma o ar e sufoca. É onipresente; está em todas as mídias e em todas as conversas; suscita contendas nos ônibus e táxis. Mas é na internet que o comprometimento do público toma corpo: sites, grupos de debate, blogs, salas de bate-papo, tuitagens, comunidades virtuais e campanhas inflamadas para a eliminação de fulano ou beltrano proliferam e deixam o rastro do dinheiro, trabalho e tempo oferecidos gratuitamente ao show de horror. Em espaços de reclusão, que pela própria dimensão já inspiram pesquisas acadêmicas, é unânime o desejo do embate feroz entre os aprisionados. Neles, impera o princípio muito bem formulado pelo organizador da rinha: importa muito mais a queda que a salvação.
O princípio violento do BBB não é oculto, pelo contrário, o próprio programa faz questão de afirmá-lo constantemente – e funciona inúmeras vezes como propaganda – ao enfatizar o caráter eliminatório e cruel do jogo. Cada edição impõe a seus participantes situações mais árduas. “Não é um jogo de quem ganha. É um jogo de eliminação. Esse saber generalizado, no entanto, não impede que uns se submetam e outros castiguem, nem que aqueles que se submetem também castiguem. Pelo contrário, a participação é a pedra fundamental do espetáculo. Mais que a aceitação passiva desse princípio nem um pouco subjacente, o programa conquista o engajamento ativo, frequentemente maníaco, nessa engrenagem de fazer sofrer”, afirma Silvia.
Dividido em quatro partes, “Show de horror”, “Das regras”, “Dos jogadores” e “Das provas”, o livro conta também com o posfácio “Breve história da realidade: sofrimento, cultura e dominação”, do professor-adjunto de filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora Pedro Rocha de Oliveira, e com texto de orelha assinado por Gabriel Cohn.
Trecho do livro
“A dificuldade de se escrever a
respeito da ideologia hoje é que para o juízo bastaria a descrição, mas essa já
não o (co)move. Se uma pessoa se mostra crítica ou mesmo condoída diante do
sofrimento que se avoluma nesse tipo de programa de TV, a ela caberá a pecha de
idiota (ou invejosa!). A dominação se mostra a céu aberto em dia claro, sem que
se renuncie à sua prática. Todo discurso a respeito de justiça, liberdade,
igualdade e até mesmo bondade é descartado com virilidade em nome de uma dura
realidade. [...] Não são poucas as vezes em que coloco o problema do sofrimento
ao qual são submetidos os participantes e a resposta é: “Mas foram eles que se
voluntariaram”. Uma das ideias centrais que sustentam o estado de direito é a
da inalienabilidade: não se pode abrir mão da dignidade, por exemplo, mesmo que
se queira. Em tese, nenhum contrato assinado pelos participantes de reality
shows poderia ser válido em qualquer lugar no qual a democracia e os direitos
humanos vigoram. E o problema jurídico posto por essas produções não responde
sequer ao paradoxo dos direitos humanos colocado por Hannah Arendt, segundo a
qual tais direitos só podem ter vigência quando levados a cabo pelos estados
nacionais, ou seja, os apátridas não os têm. Os participantes são cidadãos
brasileiros, alemães, norte-americanos, holandeses, argentinos e um longo etc.
A vida à disposição da produção de entretenimento a que se assiste em reality
shows é um índice mais do que transparente de que vivemos em um estado de
exceção permanente, pulverizado e onipresente.”
Leia a orelha do livro,
assinada por Gabriel Cohn
Você sabe o que é o inferno? É o lugar em que a mera ideia de dizer
“basta” ao sofrimento que uns infligem a outros a céu aberto é impensável.
Entretanto, estamos num universo – o dos reality shows na televisão –
no qual, sem o céu da promessa e sem o cenário da exposição pública e ampla,
nada de inferno. Aqui, como em todo lugar só que em escala brutal, céu e
inferno se irmanam, demonstra o preciso relatório que se lê neste livro. Silvia
Viana leva a sério o aparente escárnio da designação reality show. Quais
são as molas que movem esse lado fake e nem por isso menos real do
mundo em que vivemos, onde estão as roldanas que dirigem as cordas, quem são as
figuras que elas agitam, como o conjunto se fecha sobre si mesmo sem deixar
lacunas – está tudo no texto, e este se desenvolve com traços firmes e finos,
sem poupar nada. A primeira coisa que ocorre ao mais distraído leitor é:
isso é puro Kafka. E é por aí mesmo que o livro começa. O espantoso não é que
se possa evocar Kafka – pelo contrário, isso bem poderia soar kitsch.
Espanta, porém, e causa admiração e leva a ler e reler este relatório clínico,
que sua escrita é digna de um Kafka. Como o é a sensibilidade sem a qual
ninguém se aventuraria no mundo das sombras e dos gemidos que se oculta logo
atrás da luz fulgurante e do alarido do espetáculo e ainda teria coragem de
retornar com a memória cristalina do testemunho. E tudo isso sem um gesto de
indignação autocomplacente e sem perder a capacidade de converter a repulsa em
um humor agridoce tanto mais incisivo quanto mais suave. A fatura deste livro
parece seguir uma regra básica: quanto mais o tema se revela repugnante tanto
mais refinada deve ser a sua exposição. O resultado é que a leitura vai
revelando que, diante disso que assim se expõe, não cabe o gesto banal da
indignação moral (na realidade, mostra-se que esse gesto mesmo já está
programado no espetáculo) nem a repulsa à má qualidade estética (também isso é
provocação, convite, engodo), mas algo mais fundo. É que o rótulo reality
show pode muito bem ser levado ao pé da letra.
Trecho do livro
“Por trás do sucesso de audiência dos realities, estão as engrenagens
da indústria cultural e um formato que também prolifera por um interesse
econômico bastante simples: trata-se de um produto muito barato, cujo retorno
financeiro compensa. A razão do baixo custo está no fato de ser uma mercadoria
fabricada just-in-time. Os shows de realidade podem ser realocados, encurtados,
expandidos, retirados ou recolocados na programação, segundo os índices de
audiência, com maior facilidade que os outros programas. Os reality shows são
produções que dispensam estoques: em sua maioria, não há necessidade de
cenários, e mesmo aqueles que criam ambientes-prisões precisam de apenas um
espaço, que pode ser reciclado a cada edição. O Big Brother não abre
mão de um roteiro, cabe à “pessoa de carne e osso” elaborá-lo, caso contrário
será tida por “passiva” e será demitida no próximo “paredão”. “
|